domingo, 10 de abril de 2016

A gastronomia musical com um toque de U2

Caneta e papel na mão que lá vai uma receita de sucesso, seja para elaborar um prato, seja para escrever uma canção. Basta saber o quê combina com o quê, em quanto tempo e em qual intensidade. Esta é maneira como o chef Guga Rocha enxerga a similaridade entre música e gastronomia. “Tenho essa teoria há muito tempo. O pessoal até me acha meio maluco, mas é verdade”, comenta. Ao menos aqui no Vitrola, não vemos maluquice alguma. Inclusive, compartilhamos de outra afirmação do Guga: “Sem música e sem comida não dá para viver”. Só é preciso lembrar que nos dois casos a resposta da plateia é imediata, positiva ou não. Mas, e daí? Quem sobe ao palco é mesmo para ver no que vai dar.

E foi assim mesmo que o Guga encarou os desafios profissionais. Primeiro, tentou o sucesso com o Rock’n’Roll. “Pode procurar na Internet: Banda Arcanjo MTV. Vai me encontrar lá todo cabeludo”, sugere o chef, que saiu de Maceió para garimpar oportunidades em um cenário mais promissor, a apocalíptica megalópole capital paulista. Mas como diz um dos clássicos do AC DC: “It’s a long way to the top if you wanna Rock’n’Roll”. As contas não esperariam os holofotes, então foi preciso tomar providências. O emprego como ajudante de cozinha veio bem a calhar.

A coisa toda já estava no DNA, desde sua avó confeiteira. Com a dedicação ao aprendizado, tanto acadêmico como de outras maneiras, os resultados começaram a aparecer. O talento brilhou na gastronomia. Mesmo sem a banda, a música seguiu acompanhando sua nova carreira. “Escuto muita música enquanto cozinho, e o repertório vai mudando conforme a receita. Se for um prato italiano, ouço música italiana; se for um prato francês, ouço Edith Piaf”, conta o chef. E não para por aí: “Também cozinho cantando muito. O pessoal que trabalha comigo morre de rir”.

É dessa eclética mistura de estilos que vem a escolha da “bolacha” da vez. Rattle and Hum, do U2, lançado em 1988, foi marcante na vida de Guga. “Estava começando a tocar violão e foi o primeiro disco de Rock que ouvi de verdade. Era um disco duplo e fui da primeira até a última faixa dos dois sem parar”, lembra o chef, como se estivesse revivendo aquela sensação. “Esse disco traz toda aquela coisa musical do Harlem, tem inclusive a música Angel of Harlem, várias faixas têm metais. Minha reação foi de ter descoberto o que eu queria fazer.”

A riqueza musical é mesmo um dos diferenciais de Rattle and Hum, o sexto disco da banda irlandesa, que traz gravações ao vivo e em estúdio. A faixa de abertura, por exemplo, é um cover dos Beatles com Helter Skelter. Há ainda a majestosa participação de B. B. King e sua inseparável guitarra Lucille em When Love Comes to Town. Embora o Guga não tenha comentado, certamente adorou essa parceria. “Gosto muito de Blues e de Jazz”, afirma. Aliás, o apurado gosto musical do chef não é obra do acaso. “Minha família gosta muito de Bossa Nova, então sempre curti. Ouvia Baden Powell, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, essa galera toda.”

Guga Rocha parece mesmo ser alguém muito grato por todas suas experiências, boas ou não, uma daquelas pessoas que acreditam ser a vida o bem maior. Seu bom humor é contagiante, assim como sua preocupação com o próximo. A conversa com o Vitrola já rumava para o final quando se ouviu um forte barulho de vidro quebrando no local em que estávamos. De imediato, o chef fez uma piada, mas ao perceber que alguém poderia ter se ferido, pediu licença, interrompeu a entrevista e correu para socorrer. Embora devesse ser a regra, a atitude não deixa de chamar a atenção nos dias atuais em que o próximo parece estar cada vez mais distante.

Vai aí o vídeo de uma das faixas inéditas de Rattle and Hum, a animadíssima Desire.



sábado, 2 de abril de 2016

Chora, viola! Mas é de felicidade

Esta semana tem repeteco no Vitrola. Poderia até ser surpresa, mas a “bolacha” que volta à cena tem presença garantida – quase obrigatória – na lista das mais tocadas do universo Rock’n’Roll. Trata-se de Road to Ruin, dos Ramones, lançado em 1978 pela Sire Records. A faixa que mais se destaca entre as 12 desse disco é I Wanna Be Sedated, tanto que até rendeu um single no ano seguinte. Também chama a atenção Needles and Pins, a única música que não é deles. “É uma baladinha, diferente do que eles faziam. Algo meio mela-cueca”, comenta Zé Helder, violeiro do Matuto Moderno e do Moda de Rock.

Nem pense em deboche. Zé Helder fala com muito carinho de Road to Ruin, o  primeiro disco que comprou, lá em meados de 1989, quando ouvia muito Punk Rock. Pode-se dizer que foi um achado, pois àquela época dificilmente aparecia algo do estilo em Itajubá, a cidade do sul de Minas Gerais onde Zé morava. “O que tinha era muita fita cassete que o amigo de algum amigo ou um primo levava de São Paulo para lá. Foi assim que acabei conhecendo Kólera e Olho Seco, por exemplo.” O violeiro lembra bem do momento em que se deparou com o Road to Ruin. “Encontrei o vinil na loja e não tinha grana comigo. Só pude voltar lá no dia seguinte, rezando para ninguém tê-lo comprado. Me lembro até do cheiro do disco”, conta o violeiro, que tem a bolacha até hoje.    

Quem acompanha o Vitrola já sacou que o Zé Helder é o parceiro do Ricardo Vignini – que também já passou por aqui – no impressionante trabalho de tocar clássicos do Rock na viola. Justiça seja feita, os caras fazem muito mais do que reproduzir tais músicas, recriam esses sons com novos arranjos para esse instrumento tão particular. “A gente se preocupa em manter o espírito do Rock’n’Roll sem deixar de tocar viola, que é muito rica de ritmo, de mão direita. Bom, no caso do Ricardo, de mão esquerda também”, comenta Zé em tom de brincadeira, lembrando que seu parceiro é canhoto.

Mas a história do Zé com a música começa bem antes de ele se tornar íntimo dos Ramones e da viola. Ainda menino, em Cachoeira de Minas, sua cidade natal, aprendeu a tocar clarinete na Sociedade Musical Eduardo Tenório. As aulas eram coisa séria, com leitura de partitura, solfejo e tudo mais. Rolou até turnê. Bem, ao menos deve ter sido essa a sensação para um garoto de dez anos ao viajar cerca de 60 quilômetros, sem a companhia dos pais, para tocar com diversas outras crianças na cidade vizinha.

Na adolescência, já morando em Itajubá, Zé passou a tocar contrabaixo, primeiro em uma banda que se dedicava a covers de Rock nacional dos anos 1980 e, depois, já um lance mais profissional com a Blues Corporation. O interesse em evoluir musicalmente só aumentou, e o então baixista foi estudar no Conservatório Estadual Juscelino Kubitscheck, na cidade de Pouso Alegre (também no sul de Minas). Curioso por natureza, buscou mais informações em livros e dicas com músicos mais experientes. Para completar, cursou Licenciatura Plena em Música pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro.

Voltou às aulas no conservatório de Pouso Alegre, mas dessa vez como professor. Foi lá que assistiu a uma apresentação do Russo da Viola. “O cara estraçalhou!”, lembra Zé. Alguns dias depois encontrou o amigo Nikolaos, que lecionava guitarra, com uma viola na sala de aula. Não perdeu a oportunidade: tocou e se apaixonou. Em pouco tempo já havia comprado a sua. Para se ter ideia da dedicação, ele acabou criando um curso de viola em Pouso Alegre e outro no Conservatório Municipal de Guarulhos, na Grande São Paulo, onde dá aulas duas vezes por semana.

Quem puder conferir o Zé Helder ao vivo, vale muito a pena. Inclusive, caso alguém esteja em Toronto, no Canadá, nos dias 2 e 3 de maio, o Matuto Moderno vai tocar na Canadian Music Week. “Também já arrumamos outros lugares por lá para mostrar nosso som”, diz o “cabôco” bão dimais da conta. Como ele trouxe os Ramones de volta ao Vitrola, vai aí o clipe de I Wanna Be Sedated.



segunda-feira, 28 de março de 2016

Do constrangimento em família à carreira profissional

O fascínio e a admiração por uma “bolacha” podem ser tão marcantes que até definem o início da trajetória artística de diversos músicos. Certamente ainda contaremos muitas dessas histórias aqui no Vitrola. Na verdade, vamos começar agora mesmo. Mas desta vez a influência vai além da sonoridade e entra na praia do humor. Foi o que aconteceu com Carlos Kozera, grande amigo e parceiro de “palhaçadas”. Artista com várias habilidades e reconhecido pelo trabalho apresentado no Youtube, Kozera conta que despertou para o que realmente queria fazer da vida após conhecer um disco histórico.

Em meio a uma reunião de família, uma prima apareceu empolgadíssima para compartilhar o som que trazia em uma fita cassete. “Ela colocou para tocar e era algo bem diferente. No meio das músicas os caras iam falando um monte de besteira e palavrões”, lembra. Aquela raridade era uma cópia do primeiro e único disco de estúdio dos Mamonas Assassinas, um grupo de cinco jovens da cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, que conquistou um público gigantesco. Se por um lado as cômicas canções daquela rapaziada criaram um certo clima de constrangimento na família Kozera, por outro soaram como um convite para quem só queria saber de jogar futebol, andar de skate e tocar violão.

“Os caras quebraram várias barreiras, pois diziam toda aquela sacanagem com uma linguagem que agradava praticamente todo mundo”, comenta Kozera. “Sem contar que tocavam muito, cantavam muito e tinham letras geniais.” Sua principal conexão com o trabalho dos Mamonas foi exatamente a mistura de música e humor. Kozera é daqueles camaradas que leva muito a sério a história de “perco o amigo mas não perco a piada”. A cada cinco de suas frases, pelo menos três sugerem uma tiração de sarro. O resultado costuma ser positivo, mas há exceções. “Quando estudei teatro no Senac, acabava sempre indo para o lado do humor, mas os professores me fizeram entender que não precisa ser assim.”

O disco homônimo dos Mamonas foi gravado em 1995 pela EMI, lançado em vinil, CD e K-7, e vendeu mais de três milhões de cópias. Formada por Dinho (vocal), Bento (guitarra), Júlio (teclado), Samuel (Baixo) e Sérgio (bateria), a banda tinha origem no Rock’n’Roll (quando ainda se chamava Utopia) mas ganhou espaço misturando tudo quanto é estilo musical e situações cotidianas que pudessem render uma boa gargalhada. A irreverência e o carisma atraíram fãs de todas as idades e classes sociais. Tanto que há 20 anos lamentamos a perda do grupo em um acidente de avião.

A arte dos Mamonas continua viva na memória de uma legião de fãs e na influência ao trabalho de inúmeros artistas. “Sei tocar quase todas as músicas daquele disco. Sempre que há uma roda de amigos e um violão, Mamonas é certeza de diversão e música boa”, confirma Kozera, que também é malabarista, anda em pernas de pau, integra o grupo de palhaços Los Marmotas e faz parte do elenco do canal Nomegusta no Youtube (com mais de 3 milhões de inscritos!). Em sua opinião, o humor é um caminho valioso para quebrar as barreiras que separam as pessoas, ainda mais nos dias de hoje em que cresce a tendência de cada um se fechar em seu universo particular de comunicação virtual. “Quando alguém faz uma piada, uma brincadeira, chama a atenção das outras pessoas, contagia, aproxima.” Que assim seja!

Vai aí um clipe dos Mamonas Assassinas com “Pelados em Santos” e a icônica Brasília amarela.



domingo, 13 de março de 2016

Polêmica também pode ser coisa muito boa

Alguém já viu confronto em que todo mundo sai ganhando? É difícil, mas se tiver arte no meio a coisa muda de figura. Para provar que isso é a mais pura verdade, a “bolacha” da semana é baseada no duelo musical de Noel Rosa e Wilson Batista (Baptista, originalmente), um embate histórico que dá gosto de ouvir e repetir. O disco de dez polegadas gravado pela Odeon, em 1956, ganhou o sugestivo nome de Pôlemica e uma capa com a caricatura desses boêmios cariocas assinada do cartunista Antonio Nássara.

As nove faixas do disco são cantadas por Francisco Egydio, interpretando Noel, e Roberto Paiva, fazendo as vezes de Wilson. As composições foram criadas quase como repentes, pois assim que um fazia a provocação, o outro se apressava em responder. A sofisticação de letra e música é algo que pouco se vê nos dias de hoje. “Eles mostraram que é possível tirar a limpo questões pessoais com muito talento e sem violência.” Esta é a opinião de Manuel Jorge Dias, orgulhoso dono de uma cópia desse vinil.

Jorge é um engenheiro de minas formado pela Universidade de São Paulo (USP), em 1979, que ganhou notoriedade profissional pelos trabalhos realizados no ramo de implosões (como o presídio Carandiru). Tanto que passou a ser conhecido como Manezinho da Implosão. E Polêmica é um de seus discos prediletos. Essa informação ganha relevância quando consideramos o fato de Jorge ser também um dos maiores colecionadores de vinis do País. “Hoje, sou o segundo”, afirma.

O engenheiro é responsável pelo Feirão de 1 Milhão de LPs, que a partir de março de 2014 transformou os finais de semana no bairro da Mooca, na capital paulista. “Cheguei a receber 700 pessoas no evento”, conta Jorge. Também pudera, além das inúmeras opções de diferentes épocas e estilos musicais, os compradores desembolsavam apenas R$ 4,90 por disco, com direito a mais um de brinde. O sucesso foi um incentivo para a criação do Casarão do Vinil, loja localizada na mesma região e que abriga um acervo de mais de 700 mil discos. “Queremos transformar a Mooca na capital brasileira do vinil”, anuncia o empresário.

E como um especialista em implosão acaba criando uma explosão de discos dessa maneira? No melhor estilo do limão para a limonada. Pensando em diversificar os negócios, no ano 2000 Jorge arrematou cinco carretas de mercadoria em um leilão de roupas, abraçou o comércio e abriu uma loja. Não abriu mão da atividade principal, mas também não esperava que a loja acabaria “implodindo”. Problemas com falta de segurança minaram os resultados e a disposição para continuar vendendo roupas.

Foi aí que tudo começou. Para se desfazer das roupas, Jorge instituiu uma espécie de feira de trocas, na qual as pessoas pagavam pelas peças de vestuário com livros. Em seguida, começaram também a ofercer antiguidades para o escambo e, por fim, surgiram os vinis. Embora naquela época não soubesse avaliar o valor das bolachas, Jorge se encantou com as histórias por trás daqueles discos (opa, qualquer semelhança com o Vitrola Secrets não é mera coincidência, a gente também adora). Daí para frente, não parou mais, e já chegou a ter o maior acervo nacional de discos.

Jorge continua trabalhando com as implosões – será o responsável, por exemplo, pela implosão do Estádio Olímpico, a antiga casa do Grêmio, o tricolor de Porto Alegre (RS) – mas a paixão pelos discos ganhou um espaço e tanto em sua vida. Mais ainda pelo fato de ter conseguido promover ações de cidadania por meio da venda de discos, como campanhas de doação de agasalho, de sangue e de medula óssea. Que as bolachas continuem a ser motivo de felicidade.

Esse vídeo com Henrique Cazes e Cristina Buarque conta – e canta – um pouco da rivalidade musical entre Noel Rosa e Wilson Batista.




domingo, 6 de março de 2016

“A Lauryn Hill é da quebrada!”

Os textos do Vitrola são, de uma forma ou de outra, homenagens. Seja para quem nos conta suas histórias, seja para os artistas responsáveis pelas “bolachas”. Nesta semana elas vêm de coletânea. Na próxima terça-feira (8), será o Dia Internacional da Mulher, com seus diversos motivos e maneiras para celebrar. Exatamente por isso o post de hoje é com a fotógrafa e artista visual Mariana Ser, uma talentosa voz feminina.

“Mari” – foi assim que a conheci – produziu uma série de autorretratos chamada As mulheres que eu gostaria de ser, em que expõe sua admiração e seu respeito por algumas figuras marcantes. A ideia surgiu em 2015, entre o fim de novembro e o início de dezembro, após ter assistido a Frida, filme sobre a vida da pintora mexicana Frida Kahlo. Mari começou a brincar de imitar a imagem marcante da artista – sobrancelhas, cabelo, olhar – e se surpreendeu. “Ficou mesmo parecido.” Esse primeiro resultado trouxe outras mulheres impressionantes e novas imagens tão interessantes quanto.

Lauryn Hill é um nome que poderia muito bem ter entrado nessa lista, pois está entre as cantoras que Mari mais admira. “A voz dela é maravilhosa, sempre fui muito fã.” Pois a bolacha da vez é The Miseducation of Lauryn Hill, o primeiro disco solo da artista, que também é compositora, produtora e atriz. Aliás, Mari conta que não se cansou de ver a atuação de Lauryn em Mudança de Hábito 2, filme de 1993, estrelado por Whoopi Goldberg.

Se a cantora já era uma inspiração quando integrava o Fugees, mais ainda em carreira solo. Lançado em 1998, o Miseducation chegou às mãos de Mari como um presente de sua irmã, provavelmente no ano 2000. “Me lembro que era o ano em que o mundo iria acabar”, recorda. O mundo não acabou e a fotógrafa teve muito tempo para se deliciar com o disco. “Não sei como não o furei, de tanto que escutei.” Hoje, a bolacha vai no prato quando quer ficar animada, ou quando já está animada e quer ficar mais ainda.

Ouvir Miseducation é sempre uma experiência que entusiasma, até para quem não é fã de Lauryn. A mistura de Hip Hop, R&B, Soul e tudo o que influenciou a cantora é deslumbrante. “O disco foi considerado o primeiro Neo Soul, ou seja, ela criou um novo estilo”, comenta Mari, que também ficou impressionada com essa autêntica combinação. “Ser autêntico não é para qualquer artista. Ela é um exemplo para mim, pois também sou uma artista que mistura muito.”

Tudo isso é também uma prova da ousadia de Lauryn. “Vamos combinar que na época do Miseducation não era comum mulheres lançarem disco solo para o público Hip Hop. Até hoje é difícil. Mas ela foi corajosa e bancou seu projeto”, reforça Mari. O fato de a cantora usar a voz e a carreira para defender as causas  relacionadas aos negros também chama a atenção. “Por tudo o que vejo dela, sinto que ela não se vende. A Lauryn Hill é da quebrada.” É aí que a admiração passa do campo artístico para a postura da cantora como profissional, cidadã, enfim, ser humano.

Pelo bate-papo com a Mari, é bem possível que a Lauryn apareça em uma nova série de autorretratos. Vai aí uma mostra do que é o Miseducation com o clipe de Everythin is everything.



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Se Marky Ramone não vai a Piracaia...

Alguns medalhões da música internacional não perdem a chance de vir ao Brasil. A calorosa recepção que costumam encontrar por aqui é certamente uma das razões. Que o diga Marc Steven Bell, ou melhor, Marky Ramone, o baterista e único sobrevivente dos Ramones, lendária banda norte-americana de Punk Rock. Toda vez que ele resolve nos visitar atrai gente de todos os lados e que faz de quase tudo para se aproximar, trocar uma palavra, pegar um autógrafo, enfim, aproveitar a oportunidade.

Um exemplo é meu camarada Igor Muller, radialista e apresentador das Rádios Eldorado e Estadão. Quando Marky esteve no País em 2005, Igor trabalhava na Rádio Brasil 2000, onde o músico daria uma entrevista e, claro, faria um som. “Meu horário era das 18h às 22h, e o Marky ia tocar lá às 16h. Naquele dia cheguei ao meio-dia”, lembra ele, que esperava pelo baterista acompanhado de sua cópia de Road to Ruin para ser devidamente autografada. Lançado em 1978, Road to Ruin é o disco de estreia de Marky nos estúdios com os Ramones, e traz I Wanna Be Sedated e Needles and Pins entre as faixas mais tocadas.

Parte interessante de toda essa história é a origem da “bolacha”, agora com valor agregado por conta do autógrafo de Marky. Igor é natural de Piracaia, cidade do interior de São Paulo, próxima de Atibaia e a pouco mais de 40 km da divisa com Minas Gerais. Foi lá que iniciou sua carreira pelas ondas radiofônicas, em 2002, participando da programação esportiva e também musical da rádio comunitária.

Com certa frequência (sem qualquer intenção de trocadilho), uma leva de vinis era, como podemos dizer, colocada à disposição para doação. Foi em uma dessas limpas que Igor garimpou o Road to Ruin, intacto. Ele lembra que era comum encontrar raridades em excelente estado no meio daqueles discos. “Achei coisas como Selvagem, dos Paralamas do Sucesso, e Music for Airport, de Brian Eno”, confirma. Quem diria que um vinil prestes a virar descarte em Piracaia acabaria nas mãos de Marky Ramone para ser autografado? Se Maomé não vai à montanha...

Na verdade, esse episódio é uma das muitas histórias que Igor tem para contar sobre os caminhos que ele mesmo tem construído para ir a Maomé, à montanha e a diversos outros destinos. Apaixonado por música desde a infância, teve a sorte – ou o destino – de sempre estar em contato com artistas de qualidade, gente de primeira linha. O espírito questionador também o incentivou a querer saber mais sobre toda essa galera e entender cada vez mais e melhor as sonoridades diante de seus ouvidos.

Foi essa inquietude que o levou, por exemplo, à Rádio Brasil 2000. “Havia lá um programa transmitido nas noites de sexta com a seleção musical dividida entre alguém conhecido e um ouvinte, com meia hora para cada um”, conta. E acrescenta: “Enviei minha seleção e fui escolhido para apresentar no mesmo dia que o Dudu Braga”. Se o simples fato de participar já seria gratificante, estar no mesmo programa que o filho de Roberto Carlos então foi um prêmio.

Provavelmente mais do que isso. Na preparação para o programa Igor teve contato com a equipe técnica e conversou sobre sua experiência como locutor e seu conhecimento musical. O bate-papo foi o primeiro passo para, mais tarde, estar do mesmo lado de profissionais que já admirava. Trabalhar com o que se gosta não é só uma questão de privilégio, é consequência do quê e de como se busca. Que venham novas histórias para contarmos por aqui.

Aí vai uma apresentação dos Ramones com Needles and Pins, em 1978.



domingo, 21 de fevereiro de 2016

Amigo também é para essas coisas

Entre as muitas coisas boas que vêm da música está o milagre da multiplicação das amizades. Tudo bem, milagre pode ser um exagero, mas que a sintonia na preferência musical é um estímulo e tanto para aproximar novos e velhos amigos, disso não há dúvidas. No entanto, é bom lembrar: para tudo nessa vida há limites. Que o diga o jornalista Eduardo Barão, pois vai por aí a história que ele nos contou sobre uma “bolacha” que nunca teve.

O disco em questão é VS., o segundo gravado pelo Pearl Jam e lançado em outubro de 1993. “É aquele com uma ovelha na capa”, detalha Barão. Com 12 faixas, VS. tem um som pesado na maior parte do tempo, chegando a ser sombrio em certos momentos. A energia peculiar da banda está muito presente. Experimente colocar Go, a faixa de abertura, como som de seu despertador e vai entender bem o que isso significa. Algumas das músicas mais tocadas na época são as menos “paulada”, como Daugther, Dissident e Elderly woman behind the counter in a small town.

Voltando à relação entre música e amizade, a admiração pelo Pearl Jam é compartilhada por Eduardo Barão com o amigo de infância e também jornalista Luiz Megale. Talvez a medida da predileção seja um pouco diferente. “O Megale queria ser o primeiro cara no Brasil a comprar o VS.”, explica Barão. Se havia um ponto estratégico para fechar o cerco em torno da primeira cópia de VS., em São Paulo (ambos moram na capital paulista), esse lugar era Galeria do Rock, no centro velho da cidade.

Pois bem, a aventura começou bem cedo no dia em que o disco chegaria ao País. “Praticamente abrimos a Galeria. Mas logo soubemos que o disco só estaria lá um pouco mais tarde”, recorda Barão. Durante toda a manhã, os dois não arredaram pé do local, buscando loja por loja. Após o almoço, ali pelo centrão mesmo, retornaram para o segundo turno da jornada.

A rotina não foi diferente: peregrinação pelas lojas sem que o VS. aparecesse. Diga-se de passagem, o nome da bolacha era bem sugestivo para a situação. “O dia terminou e ainda estávamos lá, sem o disco”, conta Barão, que acabou por deixar o campo de batalha. “Eu já tinha feito a minha parte de amigo.” É, tudo tem limite, até montar guarda a espera de um lançamento do Pearl Jam.

Mas, Barão, e o Megale? “Continuou lá por mais um tempo, sem sucesso. No dia seguinte, voltou à Galeria e conseguiu o CD”, responde. E acrescenta: “Até hoje ele acredita ter sido um dos primeiros brasileiros a adquirir o VS.”. Depois dessa experiência, nem mesmo a admiração pela banda e pelo próprio disco fez com que o Barão tivesse sua própria cópia. “O VS. é muito bom, já ouvi umas quinhentas vezes. Mas nunca comprei.”

A amizade de Barão e Megale ficou bastante conhecida pelos ouvintes da Rádio Band News FM, pois os dois trabalharam juntos apresentando a programação matutina da emissora. Barão continua nas ondas radiofônicas (entre outras missões no Grupo Bandeirantes) e Megale está na bancada do Café com Jornal, nas manhãs televisivas da Band.

Aqui vai uma pitada do VS., com o Pearl Jam tocando Dissident ao vivo.